cinema sob uma perspectiva contra-hegemônica

Ruy Guerra e a traição de Vargas Llosa

Um cineasta moçambicano radicado no Rio, um escritor peruano radicado em Barcelona e de como a tentativa fracassada de criar o roteiro p/ um filme baseado na guerra de Canudos deu origem a uma feroz acusação de plágio

(por Vavy Pacheco Borges)

Segundo relato de Mario Vargas Llosa em 1989 à revista Positif, Charles Bluhdorn tinha adorado seu livro Pantaleão E As Visitadoras; então, mandara Christian Ferry lhe oferecer 50 mil dólares pelos direitos de filmagem e queria que Llosa dirigisse a película, pois desejava um filme de autor. Llosa retorquiu, irônico: nunca tirei nem uma fotografia… Berlanga lembrou o nome de Ruy para Ferry, que já o conhecia e tinha ficado bem impressionado com aquele rapaz nada convencional, com cara de índio e cabelo em chignon. Resolveu colocar Ruy e Llosa em contato para um roteiro em espanhol. O interesse de Ruy pelo episódio de Canudos já se evidenciava desde Os Fuzis; não querendo fazer Pantaleão, introduziu o peruano a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Uma carta do escritor no acervo fala a Ruy sobre sua empolgação com a descoberta do livro.

O projeto de Ferry era grandioso, com autorização para gastar até 2,5 milhões de dólares. Fizeram locações na América Central, contrataram técnicos e contactaram atores importantes, como Albert Finney, Sidney Poitier, Jack Palance e Dean Stockwell. Ferry contou que, quando almoçavam com os big bosses e suas mulheres, Ruy, cujo inglês não era muito bom, falava pouco; porém, com seu enorme poder de sedução, sua voz melodiosa e sua comunicação não verbal encantava a todos.

No entanto, as coisas mudaram na Paramount, e houve um recuo no financiamento. Ruy e Ferry foram a Hollywood solicitar ao roteirista Dalton Trumbo uma verão em inglês do roteiro, para a qual esperavam, após pressão, uma resposta positiva. Ruy passou dias e dias na expectativa num hotel de Los Angeles. Sem ter o que fazer, ia quase diariamente aos estúdios em busca de definições. Recebia ajuda de custo em maços de dólares que nem cabiam nos bolsos do blue jeans. Nesse momento, cruzou no hotel com John Wayne, ídolo de sua mocidade, algo que marcou bastante seu imaginário.

Apesar dos muitos cortes feitos nos projetos, o filme não se realizou não apenas por questões econômicas. Tony Luraschi, cujo pai Luigi era ligado aos altos quadros da empresa, trabalharia no filme. Tornou-se próximo de Ruy, a quem admirava muito. Estando por dentro da empresa, revelou ao diretor os detalhes da suspensão do filme. Reinava na Paramount um “imperialismo cultural”; além disso, tinham tido alguns fracassos comerciais com filmes passados na América Central. Barry Diller, chairman da Paramount, passou a ser chamado de Barry Killer (assassino), por ter sido responsável pela suspensão de vários projetos. Quando Ferry informou Ruy sobre aquele não definitivo, mesmo com o treino para esse tipo de decepção, o choque foi grande. Apesar de o filme não sair não sair, Ruy e Ricardo Aronovich, que seria o fotógrafo, receberam o que lhes tinha sido prometido. Da boa quantia, Ruy empatou uma parte num projeto de filmagem do livro Sargento Getúlio; como não conseguiu todo o necessário, esse foi para a lista de projetos que não seguiram adiante.

Ao aproximar Ruy e Llosa, Ferry achou que daria certo: Ruy, homem de imagem, som, música; o outro, das letras. Ferry e Luraschi achavam Ruy uma figura troublante, perturbadora no sentido da impressão que causava. Compararam-no ao personagem Bartleby, de Herman Melville. Aos poucos, Ferry deu-se conta do divórcio entre os dois: o peruano era, no fundo, um europeu, civilizado, racional; o africano meio sul-americano era um instintivo, emocional. Não havia a menor sensibilidade em comum, seria impossível uma boa relação humana.

Mais de quinze anos depois, Llosa forneceu à Positif suas impressões sobre Ruy:

[Ele] é muito difícil, pois tem seu próprio mundo, suas ideias e suas obsessões, o que é perfeitamente compreensível. Para ele, um roteiro tem que servir para materializar tudo isso.

Como com ele se passava a mesma coisa, as discussões eram violentas, terríveis, o que a seu ver não impediu que tivessem ficado amigos. Ruy lhe pedira somente três coisas: que fosse uma história de amor, que tivesse relação com a Guerra de Canudos e que tivesse a imagem de uma mulher enrolada em uma corda, no deserto; para Llosa, Ruy tinha obsessão com essa imagem. Durante dois ou três meses, na casa do peruano em Barcelona, os dois prepararam juntos um roteiro inspirado em Canudos, o qual se intitularia A Guerra Particular. Llosa disse, ainda, que Ruy teve a maior dificuldade em aceitar o personagem principal, que ele sugerira, Galileo Gall, frenólogo escocês anarquista.

Após certo tempo de trabalho em comum, Ruy afirmou achar que Llosa entendera bem o que ele desejava e retornou a Paris. Llosa afirmou que o filme deveria se passar no Brasil e que teria sido a censura que não permitiu. Daí a decisão pela República Dominicana, para onde Ruy e ele se dirigiram a fim de fazer modificações no roteiro. Meses depois, Ruy lhe telefonou dizendo que o filme não sairia. Depois de tudo aquilo, Llosa contou que passou a considerar os diretores de filmes uns verdadeiros heróis.

Em 1981, o escritor publicou seu romance A Guerra do Fim do Mundo, baseado na Revolta de Canudos. Não registrou menção à colaboração anteriormente desenvolvida com Ruy. Em 1994, Llosa disse à Folha de São Paulo:

Eu não tinha lido Os Sertões (…). Foi um dos dos livros que mais me impressionaram, um livro que me mudou um pouco a vida. Trabalhei muito nesse roteiro, mas desgraçadamente o filme nunca foi feito. Desgraçadamente para Ruy Guerra, porque para mim deixou uma possibilidade formidável. Fiquei tão apaixonado pela história, pelos personagens, pelo ambiente, pela época, que decidi escrever o romance.

Ruy sentiu-se traído pela falta de referência ao trabalho comum na obra publicada. Nenhuma palavra. Reclamou publicamente tanto quanto pôde. Dez anos depois, declarou à imprensa:

Ele roubou a minha história toda. Personagens, enredo, eu é que mandei pra ele a documentação toda. (…) Eu vim a Paris, o conheci. Depois, vim ao Brasil, fiz um levantamento de todo o material sobre Canudos. Não só Os Sertões. Pedi a Idê Lacreta, ela fez uma documentação enorme de livros, até iconografia. Fomos a museus fotografar. Mandei tudo para ele se informar. Depois, eu fui para lá, tinha uma história de ponto de partida, não tinha todos os incidentes, mas tinha a estrutura básica. E era a história de um velho revolucionário estrangeiro (ser escocês e frenólogo foi do Mario) que vem das guerras de Cuba e tem o ideal romântico da revolução. E chega e sabe do que está acontecendo em Canudos. E vai para lá participar daquela revolução utópica. É um cara de certa idade e acha que é a sua última possibilidade de concretizar o sonho de uma revolução (…). E ele um dia resolveu fazer o livro A Guerra do Fim do Mundo e deu declarações de que Os Sertões era uma paixão da juventude dele. Embora em entrevistas mais antigas tenha dito que nunca tinha lido!

Perguntado se não procurou uma reparação, disse:

Tentei alguma coisa naquela altura, mas eu não tinha dinheiro nem para tomar um cafezinho, quanto mais processar um cara famoso no mundo inteiro. Quando lhe perguntam sobre isso, ele diz: “Eu não posso plagiar a mim mesmo”. E eu nunca registrei a história antes, nunca pensei nisso.

Depois, Gabriel García Márquez, que se tornou muito amigo de Ruy, assegurou que, se ele processasse Llosa, testemunharia a seu favor. Para Ferry e Luraschi, o comportamento de Llosa foi bastante escandaloso.

Trecho de Ruy Guerra: Paixão Escancarada (Boitempo, p.170 -172)