cinema sob uma perspectiva contra-hegemônica

CRÍTICA – “Dia D”: os ETs como catalisadores da empatia de Spielberg

Todo mundo sabe que os ETs têm uma importância significativa na filmografia de Steven Spielberg. Em 1977, por meio de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, Spielberg lançou mão de um primeiro contato da raça humana com seres de outro planeta para transmitir uma mensagem de otimismo e paz, quando era normal vermos filmes de invasão alienígena sendo sinônimo de guerra e destruição. Em 1982, o diretor retornou ao tema com “E.T., O Extraterrestre”, dessa vez usando o olhar de uma criança para enviar uma mensagem de amizade, empatia e aceitação de diferenças.

De lá para cá, Spielberg voltou a nos trazer obras relacionadas a alienígenas como “Guerra dos Mundos”, porém, somente agora com “Dia D”, seu novo filme, ele volta a usar ETs para trabalhar temas que vão ao encontra de trabalhos como “Contato Imediatos do Terceiro Grau” e “E.T. O Extraterrestre”. A trama de seu novo longa-metragem começa com o personagem de Josh O’Connor, Daniel Kellner, envolvido em algo que parece uma trama conspiratória. Paralelamente, coisas estranhas acontecem com  Margaret Fairchild, a mulher do tempo de uma emissora do Kansas, personagem de Emily Blunt. Logo percebemos que a história envolve algo além do que um mero suspense de conspiração. Os segredos que Kellner guarda envolvem a revelação de que há vida extraterrestre e a ONG que o persegue quer manter esses segredos escondidos.

Na primeira hora do filme, Spielberg vai construindo aos poucos uma atmosfera de mistério e tensão que vai crescendo à medida que mais informações são reveladas ao público. Para isso, ele usa de sequências paralelas: bem executada perseguição dos homens da ONG a Daniel Kellner e a sucessão de estranhos acontecimentos envolvendo Margaret Fairchild, como falar em idiomas que ela não dominava. partir da segunda hora, o filme ganha um ritmo mais acelerado e tenso com os chamados “mergulhos” de Noah Scanlon, personagem de Colin Firth que lidera a ONG, usando tecnologia alienígena para encontrar e controlar pessoas; assim como sequências tais quais a ótima sequência do trem.

Apesar de ser um suspense com muitos momentos dramáticos, Spielberg lança mão de uma fotografia solar, que explora bastante o uso de luzes, deixando sempre um tom de esperança e otimismo. A trilha de John Willians, notório parceiro do diretor, contribui bastante para esse tom. E mesmo tendo um certo momento mais arrastado, chegando a ficar até um pouco cansativo na segunda metade do filme, a reta final é inquietante e emocionante. E um aspecto que contribui para toda a tensão, inquietação e emoção do filme é a atuação dos atores. Emily Blunt está magistral em cena, assim como Josh O’Connor que consegue passar todo o sentido de urgência em tudo o que seu personagem está fazendo. Colin Firth é outro que consegue ser crível como um personagem que realmente acredita estar fazendo o melhor para a população mundial. E elogiar as atuações de Colman Domingo já é chover no molhado. O ator é outro que se destaca sempre que aparece em cena como Hugo Wakefield.

Todos esses elementos funcionam muito bem sob a batuta do maestro Spielberg passa com maestria a sua mensagem do valor, da importância da empatia. O filme flerta em muitos momentos com a questão religiosa, tem também uma ameaça de guerra como pano de fundo, mas tudo isso gira em torno da grande tese que é relacionada à empatia. O que no faz ser humanos? Continuaríamos sendo humanos se não tivéssemos um mínimo de empatia por outro só por ele não ser do nosso planeta? Que tipo de seres humanos seríamos se nos permitíssemos ser perversos com o outro só por ser um alienígena? Que tipo de seres humanos seríamos se nos escandalizássemos com maus-tratos a uma animal como um cachorro, mas pouco nos importássemos com crueldades feitas a um ser só por ele ser de outro planeta? Sem falar que os ETs também simbolizam o outro, o imigrante, o asiático, o árabe, o palestino.

Muitas vezes falar de amor e de empatia pode parecer piegas, cafona, porém Steven Spielberg, do alto de seus quase 80 anos, não tem pudor de retomar um tom de filmes clássicos setentistas e oitentistas para voltar a falar da importância da empatia. Mais uma vez o cineasta usa alienígenas, não para falar do que vem de fora, mas para focar em como deveríamos nos portar aqui dentro do nosso planeta.

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