cinema sob uma perspectiva contra-hegemônica

CRÍTICA – “A Noiva!”: quem são os monstros?

O filme “A Noiva de Frankenstein”, de 1935, é uma sequência direta do cultuado clássico Frankenstein, de 1931. E, embora talvez não esteja na mesma prateleira que o seu antecessor, o longa dirigido por James Whale também garantiu o seu lugar no universo do monstro criado por Mary Shelley, principalmente por sua atmosfera singular e estilizada. E agora, em 2026, acaba de chegar aos cinemas “A Noiva!”, o remake da obra de 1935 com direção de Maggie Gyllenhaal, onde também busca a construção de um ambiente esteticamente mais ousado.

Assim como no filme de 1935, Gyllenhaal abre seu filme com a narração da própria criadora Mary Shelley de seu pós-vida, para então partir para contar a história que acompanha Frankenstein (Christian Bale), na Chicago dos anos 30, indo encontrar a Dr. Euphronius (Annette Bening) para pedir por uma companheira que possa acabar com a sua solidão. Os dois, então, reanimam o cadáver de uma jovem trazendo ao mundo uma nova criatura, a Noiva (Jessie Buckley). E assim temos a premissa básica do filme.

Se a diretora opta por reverenciar o clássico de James Whale através de seu início semelhante, a sua refilmagem diferencia-se bastante, principalmente pelo subtexto do filme. Enquanto o filme de Whale traz o debate do limite da ciência e da ética científica, Gyllenhaal opta por trabalhar temas como opressão e a violência sofrida por mulheres, em um mundo machista que cala e inviabiliza o feminino. Isso tudo dentro de uma estética apuradamente estilizada. Onde o filme traz elementos de musicais, flerta com o punk, com o gótico. Tudo isso funciona muito bem para a construção dessa atmosfera singular pensada pela cineasta. A fotografia explorando muito as sombras traz esse ar de um mundo sombrio e violento.

Outra questão importante é a de quem são os monstros no filme. Enquanto o casal de criaturas é tratado como aberrações, as atitudes mais monstruosas vêm de homens “normais” que em vários momentos se comportam como seres bestiais no tratamento para com a Noiva. Passagens como os homens que a atacam na boate e do policial fazendo uma abordagem altamente abusiva. Porém, esse aspecto mais ligado à pauta de gênero, se por um lado é bem interessante e funciona em muitos momentos, em outros não parece ser tão bem desenvolvido e acaba ficando com um ar puramente panfletário. Como o fato de a Noiva influenciar outras mulheres que passaram a se pintar como ela. É algo que ficou um pouco solto, assim como a questão envolvendo a máfia também não é bem desenvolvida.

A atmosfera do filme, porém é algo que acaba suplantando esses aspectos negativos. Assim como a interpretação do casal vivido por Jessie Buckley e Christian Bale. Buckley tem uma atuação viva, vibrante e emotiva. Já Bale consegue passar muito bem por sua interpretação a imagem de um criatura forte, porém fragilizada e solitária. O trabalho dos dois é preponderante também para o resultado final do filme.

Temos, portanto, com “A Noiva!”, mais um filme do universo de Frankenstein, mas que traz originalidade e qualidade. É um trabalho que, embora tenha alguns problema, deixa evidente a assinatura de competência da diretora Maggie Gyllenhaal. A cineasta nos mostra que num mundo com homens violentos e vis, a Noiva o monstro a ser combatido.

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