
Durante os eventos de divulgação de O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho rebateu críticas de que só faz filme em Recife, de que seu cinema é regional. O curioso que essa é uma das questões que são levantadas no novo longa-metragem do diretor pernambucano, o menosprezo pelo Nordeste, além de outras reflexões importantes. O cineasta, assim como já tinha feito em outros filmes como Bacurau e Aquarius, usa o microcosmo do cenário de Recife, para jogar luz sobre todo um macrocosmo brasileiro.
A história de O Agente Secreto se passa, como foi dito acima, em Recife, no final da década de 70 do século passado, mais precisamente no ano de 1977. Acompanhamos Marcelo (ou Armando, seu nome verdadeiro), vivido por Wagner Moura, um professor especializado em tecnologia que está fugindo de seu passado misterioso para se refugiar na capital pernambucana em plena semana de carnaval. À medida que a história avança, elementos do passado de Marcelo surgem e a calmaria recifense que ele buscava encontrar vai se desmanchando. Essa calmaria buscada por Marcelo/Armando, logo no início se mostra algo que estaria apenas idealizado por ele, pois o filme já abre com a imagem de um corpo no chão, coberto por um jornal, próximo a um posto de gasolina onde o protagonista vai abastecer o carro. E é logo nessa sequência inicial que Mendonça começa a mostrar a cidade nordestina como um microcosmo que representa o Brasil. Nesse início já vemos uma atmosfera insólita e caótica que vai surgir a todo momento no filme, seja em detalhes como um gato com duas cabeças, situações peculiares como um casal pego fazendo sexo na sala do arquivo de identificação, seja até mesmo com a lenda da Perna Cabeluda.

Esse insólito caótico ajuda a compor não só um Recife setentista, mas um Brasil folclórico, carnavalesco, e também opressor e antidemocrático. A ditadura civil-militar que controlava o país é outro tema forte no filme. Isso fica claro com os policiais demonstrando uma certeza de impunidade nos atos criminosos e autoritários que eles cometem, no discurso anticomunista que sai da boca de alguns personagens pró-regime ditatorial e, principalmente, quando é revelado o motivo pelo qual Marcelo está fugindo. Ele, enquanto chefe de departamento de uma universidade, recebeu Ghirotti (Luciano Chirolli), um corrupto membro do governo federal, para visitar o centro de pesquisas da faculdade. E em virtude de um entrevero com esse homem, que deixa claro seu elitismo, preconceito e xenofobia com nordestinos, Marcelo ganha um inimigo poderoso que o obriga a fugir. Como já disse no início do parágrafo, todos esses elementos ajudam a compor uma atmosfera caótica de um Brasil corrupto, opressor e ditatorial. Onde os agentes das esferas governamentais e a elite acham que podem tudo. E a obra de Mendonça, dentro de um subtexto, nos leva a refletir sobre o Brasil atual onde tivemos um governante que tentou um golpe ao ver que perderia a eleição e ainda temos uma elite econômica que se acha a dona do país.

Quem também contribui muito para o encaixe das engrenagens da máquina de O Agente Secreto é o elenco. A atuação de Wagner Moura é espetacular, transitando muito bem entre os momentos de humor, de drama e de tensão. Mas não é só de Wagner Moura vive o excelente elenco, Carlos Francisco, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Roney Villela e Robério Diógenes também estão muito bem. Porém, falar das atuações e não falar de Tânia Maria com a sua dona Sebastiana seria um grande erro. Só que outro “ator” que também merece muito ser lembrado que é a cidade de Recife. A caracterização da capital pernambucana por parte de Kleber Mendonça Filho é algo exuberante. Toda a direção de arte nos remete muito aos anos 70. Tem um plano geral onde vemos os carros de época passando, os prédios, tudo de forma a nos levar para 1977. Os transeuntes passando pela rua, a linguagem, todo o trabalho de recriação de época é notável. Um Recife folclórico com uma sequência maravilhosa envolvendo a lenda da Perna Cabeluda. Um Recife carnavalesco (a cena do carnaval na rua é maravilhosa). Um Recife com seus tubarões à espreita nas sua praias, fazendo referências diretas ao filme de Spielberg, embora aqui o predador seja outro – não um animal marinho, mas sim o próprio Estado. Enfim, surge na tela um Recife, que apesar de suas mazelas, é vivo e pulsante.
Tal qual é o cinema de Kléber Mendonça Filho, um diretor que sabe como poucos criar um cenário caótico e administrar esse caos insólito para produzir uma obra que pode ser vista como um thriller, mas também como uma comédia, como um drama, como um filme ação, claro, sem abdicar de uma crítica social, política. Que de regional até tem, mas usa-o brilhantemente para refletir sobre um universal que, tristemente, mantém muitas das mazelas e dos erros de décadas atrás.

