
Podem chamar Michael Jackson de muitas coisas. Aqueles que o idolatram podem chamá-lo de o maior pop star de todos os tempos. Os que o detratam podem trazer à tona as acusações envolvendo abuso de crianças. A única coisa que não podem acusá-lo é de ter sido alguém normal, de ter sido um personagem tradicional, sem ousadia. E é justamente esse o maior erro da cinebiografia “Michael” que acabou de estrear nos cinemas brasileiros.
Logo na primeira metade do filme, já dá para perceber que “Michael” é uma cinebiografia que parece ter seu roteiro construído à base da Wikipedia, com uma espécie de checklist de momentos da vida do cantor. Começa pela infância, mostra o pai abusivo, passa pela mudança do padrão de vida, entre outros fatos marcantes. E aqui já podemos notar que estamos diante de uma cinebiografia que não é lá muito diferente da maioria onde parece haver mais preocupação em jogar momentos marcantes da vida do artista na tela do que construir uma boa história. E transformar um filme que conta a história de um ícone marcante, cheio de nuances e complexidades, como Jackson, em uma cinebiografia mais do mesmo é algo bem frustrante.
Aspectos da riquíssima história do pop star não são bem explorados. A relação de Jackson com os irmãos – que são quase figurantes no filme – não recebe nenhuma atenção. A relação dele com o produtor Quincy Jones é a mesma coisa. A própria conflituosa história dele com o pai até é explorada, mas teria muito mais a se aprofundar. Parece que quase tudo tem que ser superficial e jogado de qualquer maneira, como as composições do cantor. A genialidade e a excentricidade de Michael poderiam ser mais bem trabalhadas. Falta mais ousadia à direção de Antoine Fuqua que, até tem bons filmes como “Dia de Treinamento” e “O Protetor”, mas aqui em “Michael” some quase que completamente qualquer marca do cineasta. Fuqua entrega uma direção bem genérica. Aquela típica direção de quem não teve muita autonomia para realizar o filme.

No entanto, com todos esses aspectos negativos, alguns acabam livrando a cinebiografia de ser um filme ruim. Um deles é a ótima atuação de Jaafar Jackson, que é sobrinho do próprio Michael Jackson. Entrega um trabalho que vai além da sua semelhança com o tio, que é bastante explorada pela direção com vários closes no rosto do ator. É uma atuação que consegue fugir do lugar comum e perigoso da mera imitação. Seu trabalho tanto atuando, cantando ou até dançando é algo que impressiona. Outra atuação destacável é a de Colman Domingo como o controverso Joseph Jackson, o pai de Michael. Os momentos em que há uma interação entre os dois atores contracenando fazem o filme ganhar bastante. Por fim, o próprio cinebiografado ajuda a salvar o filme. Michael Jackson tem um carisma, uma aura, uma genialidade tão grandes que as cenas dos espetáculos, as cenas com suas músicas realmente fazem o público querer levantar e dançar. Emocionam até mesmo quem não é um fã fervoroso que acompanhou toda a trajetória do artista.

Fazendo um balanço, “Michael” é frustrante por um lado, o de ver uma cinebiografia de um artista tão icônico cair na generalidade com uma história mal desenvolvida e uma direção sem ousadia. Porém, por outro lado, o filme se apega em boas atuações e na força do nome Michael Jackson para agradar ao público em geral. Ficando com o saldo regular de uma nota 6. A sensação final é a de que aquele que é tido como o Rei do Pop merecia algo melhor.

