cinema sob uma perspectiva contra-hegemônica

Para além do 8 de março: FILMICCA lista dez filmes feitos por e sobre mulheres

No mês do Dia Internacional da Mulher, a plataforma reúne produções que apresentam olhares femininos de diferentes partes do mundo

 

“Leila e os lobos” (1984)

No próximo dia 8 de março, o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, data com raízes nas lutas operárias do início do século XX. Oficializada pela ONU em 1977, o dia convoca à reflexão sobre as desigualdades de gênero e as violências que seguem sendo enfrentadas por mulheres ao redor do mundo.

Neste mês de março, além de uma lista de estreias exclusivamente feminina, a FILMICCA reúne uma seleção especial de dez produções dirigidas por e sobre mulheres de diferentes partes do mundo, colocando a arte a serviço do olhar de diretoras e de suas lutas. Da resistência retratada pelas cineastas libanesas Heiny Srour e Jocelyne Saab ao espírito revolucionário da cubana Sara Gómez, da delicadeza narrativa da brasileira Julia Regis à militância feminista de Chantal Akerman.

Confira a lista:   

JEANNE DIELMAN, 23, QUAI DU COMMERCE, 1080 BRUXELLES (1975)
Chantal Akerman
Bélgica, França
Eleito, em votação realizada pela Sight & Sound em 2022, como o Melhor Filme de Todos os Tempos, ‘Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles’ (1975) é considerado a obra-prima de Chantal Akerman, protagonizado por Delphine Seyrig, sendo, até os dias de hoje, analisada e debatida por diversas gerações de cinéfilos.

A obra acompanha três dias na vida de uma mulher, uma dona de casa viúva e solitária, cujas tarefas incluem arrumar as camas, preparar o jantar para seu filho adolescente e alguns truques para sobreviver. Lentamente, sua ritualizada rotina diária começa a desmoronar.

Grande influência para o cinema feminista, a cineasta belga possui um espaço reservado na FILMICCA, plataforma que conta com outras 17 produções de Chantal Akerman. Entre elas, longas aclamados como ‘Eu, Tu, Ele, Ela’ (1974) e ‘Anos Dourados’ (1986); documentários como ‘Não É Um Filme Caseiro’ (2015), último filme realizado pela diretora; e curta-metragens como ‘Exploda Minha Cabeça’ (1968).

LEILA E OS LOBOS (1984)
Heiny SrourLíbano, Palestina
Centralizado nas mulheres dos movimentos de resistência palestinos e libaneses de eventos reais como a revolta palestina (1936), o massacre de Deir Yassin (1948) e a Guerra Civil Libanesa (1975-1990), ‘Leila e os Lobos’ (1984), da diretora Heiny Srour, narra a trajetória da estudante libanesa que dá nome ao filme vivida pela atriz Nabila Zeitoun.

Na história, Leila vive em Londres durante a década de 1980, onde organiza uma exposição fotográfica na qual as mulheres são as heroínas desconhecidas do conflito político. Através de sequências que viajam no tempo, abrangendo dos anos 1900 a 1980, ela percorre paisagens reais e imaginárias do Líbano e da Palestina. 

Nascida em Beirute, no Líbano, Heiny Srour foi a primeira cineasta árabe a ter um filme selecionado para o Festival de Cannes: o documentário ‘A Hora da Libertação Chegou’ (1974), também disponível na FILMICCA.

LETÍCIA, MONTE BONITO, 04 (2020)
Julia RegisBrasil
Dirigido pela cineasta catarinense Julia Regis, ‘Letícia, Monte Bonito, 04’ (2020) é um curta-metragem com uma doce história sobre a juventude e paixões, vencedor do Prêmio do Público no Mix Brasil.

Protagonizado por Maria Galant e Eduarda Bento, a trama se passa no interior do Rio Grande do Sul, onde Laís (Bento) conhece a intensa Letícia (Galant), com quem passa uma tarde letárgica de verão.

Além disso, na FILMICCA é possível assistir também ao trabalho mais recente da cineasta Julia Regis: ‘Ana Cecília” (2024), protagonizado por Luiza Quinteiro, Amanda Grimaldi, Áurea Baptista e Márcia Cordioli.

LA CHIMERA (2023)
Alice RohrwacherItália, França
Protagonizado pela atriz brasileira Carol Duarte ao lado do astro britânico Josh O’ Connor e da ítalo-americana Isabella Rossellini, ‘La Chimera’ (2023) é dirigido por Alice Rohrwacher. A obra foi apresentada na 76ª edição do Festival de Cinema de Cannes, onde venceu o Prêmio AFCAE, além de concorrer ao Palma de Ouro, o prêmio de maior prestígio do Festival. 

Na história, Carol Duarte interpreta uma imigrante brasileira em Toscana que trabalha como doméstica na casa de Flora (Isabella Rossellini). No país, a personagem conhece Arthur (Josh O’ Connor), um ex-arqueólogo recém liberado da prisão por saquear tumbas. Apesar dessa vida criminosa, Arthur vive tomado por melancolia e por um luto interior: ele busca algo mais do que riqueza: sua “quimera”.

Além de ‘La Chimera’, o trabalho da cineasta Alice Rohrwacher está representado na FILMICCA com o longa ‘As Maravilhas’ (2014), protagonizado por Maria Alexandra Lungu, Alba Rohrwacher, Sam Louwyck, Sabine Timoteo, Agnese Graziani e Monica Bellucci.

DE CERTA MANEIRA (1977)
Sara GómezCuba
Da cineasta, roteirista, música e jornalista cubana Sara Gómez, o drama ‘De Certa Maneira’ (1977) é uma obra feminista poderosa e radical da Cuba pós-revolução, além de ser o único longa-metragem realizado pela diretora.

O filme conta a história da paixão entre Mario, um operário de fábrica, e Yolanda, uma professora. Porém uma crise moral se instala no romance crescente entre eles, ressaltando as diferenças em suas perspectivas e valores. Marco do cinema cubano, o filme navega através dos bairros pobres de Havana logo após a Revolução Cubana de 1959 abordando questões de classe, raça e gênero.

Além de ‘De Certa Maneira’, a FILMICCA celebra a filmografia de Sara Gómez com outras 14 produções da cineasta nascida revolucionária nascida em Guanabacoa e reconhecida como a primeira mulher cubana a dirigir um longa-metragem de ficção.

JUVENTUDE (2018)
Lula Ali IsmaïlDjibouti, França
Primeiro longa-metragem de ficção da história do Djibouti, ‘Juventude’ (2018) é um retrato único e belo sobre a juventude feminina do país contemporâneo. O impressionante filme de estreia de Lula Ali Ismaïl mergulha na sociedade, cultura e tradições de seu país, enquanto conta uma história de amadurecimento sincera e sensível.

A trama acompanha Asma (Tousmo Mouhoumed Mohamed), Hibo (Bilan Samir Moubus) e Deka (Amina Mohamed Ali) , três jovens garotas, de diferentes classes sociais, que estão prestes a se formar no ensino médio. Enquanto navegam pelo início da idade adulta, elas devem decidir entre permanecer no Djibouti ou ir para a faculdade na França.

THE PUNK SINGER (2013)
Sini AndersonEstados Unidos
Dirigido por Sini Anderson, o documentário ‘The Punk Singer’ (2013) apresenta um olhar sobre a vida da ativista, musicista e ícone cultural Kathleen Hanna, que formou a banda punk Bikini Kill, lidera os vocais da Le Tigre e foi pioneira no movimento “riot grrrl” dos anos 90.

Através de 20 anos de imagens de arquivo e entrevistas íntimas, a obra mergulha na história de Kathleen e leva os espectadores a um passeio fascinante pela música contemporânea, oferecendo uma visão nunca antes vista da vida desta destemida líder.

Durante seus 78 minutos, o filme passa por todas as fases da vida da musicista: sua infância, seu início de carreira na poesia, seu ativismo, seus relacionamentos, sua criação da frase “Smells Like Teen Spirit” para Kurt Cobain, sua carreira solo como Julie Ruin e sua luta contra a doença de Lyme, descoberta em 2010.

AS MULHERES PALESTINAS (1974)
Jocelyne SaabPalestina, França
No curta-metragem documental ‘As Mulheres Palestinas’ (1974), a diretora libanesa Jocelyne Saab dá voz às mulheres palestinas, vítimas frequentemente esquecidas da guerra Israel-Palestina.

Assim como ‘Leila e os Lobos’, a obra aponta suas lentes às jovens que se tornaram combatentes, estudantes e ativistas, mergulhando em suas vidas em acampamentos e mostrando suas lutas pessoais e políticas, além da resistência contra a opressão colonial e o desejo por uma nova sociedade.

O filme foi encomendado pela emissora Antenne 2 da França, mas foi censurado ainda durante a montagem e nunca exibido. Para uma retrospectiva da diretora em Portugal, foi produzida uma cópia restaurada pelo centro de conservação da Cinemateca Portuguesa, a mesma que é apresentada aqui.

Somado a ‘As Mulheres Palestinas’, outros 14 documentários da cineasta e jornalista libanesa, fundadora do Festival Internacional de Cinema da Resistência Cultural do Líbano, estão disponíveis na FILMICCA, formando uma coleção de obras em que Saab volta seu olhar à violência histórica contra povos  marginalizados e combatentes exilados.
UMA VIDA NOVA EM FOLHA (2009)
Ounie LecomteCoréia do Sul
Comovente e sensível, ‘Uma Vida Nova em Folha’ (2009), de Ounie Lecomte, acompanha os passos da pequena Jin-hee (Kim Sae-ron) após ser deixada por seu pai em um orfanato em Seul e nunca mais voltar.

Inspirada na história da própria cineasta e ambientada nos anos 70, a trama apresentada pela primeira vez no Festival de Cannes, mostra a força de Jin-hee em meio à necessidade de lidar com a nova vida, enquanto ainda acredita no retorno de seu pai.

Na vida real, foi a diretora Ounie Lecomte que demonstrou ao mundo, e a si mesma, essa força após ser colocada no orfanato St. Paul, em Seul, depois do divorcio dos seus país. Pouco tempo depois, Lecomte foi adotada por um casal francês tendo que lidar, além da dor do abandono, com os desafios de crescer em um novo país e aprender uma nova língua. 

Porém, com o apoio dos seus pais adotivos, foi em seu novo lar que iniciou seus passos no cinema quando, em 1991, atuou no filme ‘Paris Awakens’ , dirigido por Olivier Assayas. 

UMA ADOLESCENTE DE VERDADE (1976)
Catherine BreillatFrança
Entre a fantasia transgressiva e a realidade crua, ‘Uma Adolescente de Verdade’ (1976) foi a estreia de Catherine Breillat na direção de longas-metragens, uma adaptação do romance escrito por ela mesma. 

Na obra, a diretora retrata sem hesitação os desejos obscuros de Alice (Charlotte Alexandra), uma adolescente que está explorando sua sexualidade de forma desinibida, perturbando seus pais.

Realizado em 1976, mas censurado na França e lançado somente 23 anos depois, o filme é uma das mais ousadas abordagens da sexualidade feminina já realizadas no cinema, se mantendo como uma das estreias mais radicais e provocativas do cinema francês após a Nouvelle Vague e provando estar à frente de seu tempo.

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