cinema sob uma perspectiva contra-hegemônica

O ‘Superman’ da esperança e pró-imigrantes de James Gun

O filme estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 10/07.

Gerações cresceram com os EUA usando seu cinema para difundir o seu chamado soft power (capacidade de um país de influenciar decisões e comportamentos de outros povos sem uso da violência, através de recursos culturais, ideológicos e projeção de uma imagem positiva). Personagens como Rocky Balboa, Rambo e Super Homem serviram como ferramentas para esse recurso. Acontece que, em tempos que o país norte-americano foi (e é) governado por figuras como George H. W. Bush, com sua “guerra ao terror”, e Donald Trump, com sua guerra aos imigrantes, o soft power estadunidense tornou-se algo difícil e ultrapassado, devido à antipatia e o sentimento anti-estadunidense que surgiu.

Por isso, a missão de James Gunn de dirigir o novo filme dos Super-Homem e torná-lo um símbolo de esperança, conforme o próprio diretor falou diversas vezes, era algo muito complicado. E ficava mais difícil ainda levando em consideração o histórico não muito exitoso dos últimos filmes do herói de capa vermelha e cueca por cima da calça. Como se tudo isso já não bastasse, começaram a surgir notícias de que as primeiras impressões de críticos estadunidenses não eram muito elogiosas.

Compreensível então que se chegue para assistir ao filme desconfiado, com um pé atrás, como foi o meu caso. Porém, dá para dizer que não demora muito para que Superman de James Gunn comece a dispersar as desconfianças e conquistar o público. O filme não se ocupa de contar a origem do personagem, já que já foi amplamente abordada no cinema. Pulando a origem, o longa-metragem de Gunn abre explicando que o Super Homem evitou a invasão da fictícia Borávia sobre a também fictícia Jarhanpu. Isso faz com que ele seja contestado por ter interferido no conflito. Vemos então o herói se esborrachando na neve do Ártico, com ferimentos de uma batalha contra o meta-humano chamado Martelo de Borávia. Pouco depois, somos apresentados aos pais adotivos de Clark Kent que dizem para ele não sumir. Parece algo bobo, mas esse início serve para quebrar um distanciamento entre nós e o herói. Ele sangra, ele tem os pais reclamando com ele, ele discute relação com a Lois, ou seja, o Super Homem é gente como a gente. A empatia é estabelecida.

Também logo no início, começamos a ver Gunn dois tons que estarão presentes durante todo o filme: um cunho político e um forte matiz de esperança. O teor político podemos notar assim que o Homem de Aço é derrubado em Metrópoles pelo Martelo de Borávia. O primeiro a correr para socorrê-lo é um homem de fenótipo árabe cujo nome é Malik. Ali começa a se estabelecer o sentimento pró-imigração que pode ser percebido no filme. Em um dado momento, numa discussão com Lex Luthor (Nicholas Hoult), o Super Homem fala que é tão humano quanto qualquer um, porque ele sente, ele sua, ele sofre. Uma fala que, se trocarmos o termo “humano” por “americano”, poderia muito bem ter saído da boca de um imigrante em solo estadunidense.

O tom de esperança se manifesta desde os discursos e no próprio roteiro, em momentos como o das crianças de Jarhanpu levantando a bandeira com o emblema do herói. A fotografia com cores mais vibrantes, em contraste com os tons sóbrios e niilistas dos filmes de Zack Snyder, reforça essa atmosfera mais otimista. E isso faz toda a diferença. O filme de Gunn é mais alegre, é mais divertido, sem abrir mão de ter drama, de ter um, já citado, tom político. O diretor sabe equilibrar muito bem os momentos de humor com os mementos mais dramáticos. Como já havia feito tanto nos seus filmes na Marvel, quanto com o seu Esquadrão Suicida. Por falar nos seus trabalhos anteriores, a cena em que o Sr Incrível luta contra a Guarda do Planeta é puro suco de James Gun, lembrando em muito cenas de Guardiões da Galáxia.

O elenco também contribui positivamente para o filme. Principalmente David Corenswet e Nicholas Hoult. O Super Homem de Corenswet passa bem essa aura de símbolo da esperança. O ator vai bem tanto nas cenas mais dramáticas quanto em momentos de humor. Porém, é a atuação de Nicholas Hoult que impressiona. Seu Lex Luthor soa mais ameaçador. Depois de um Luthor meio bobo e cheio de trejeitos entregue por Jesse Eisenberg no universo de Zack Snyder. Esse Luthor realmente faz jus ao cargo de principal vilão do Homem de Aço. As discussões entre eles são empolgantes e com muita força. A Lois Lane de Rachel Brosnahan também é bem está muito bem no longa. Assim como outros personagens secundários que funcionam como o Sr. Incrível interpretado por Edi Gathegi e o Lanterna Verde de Nathan Fillion.

O personagem, no entanto, que realmente rouba o filme é o cachorro Kripto. O típico cão bagunceiro e brincalhão, porém, com uma força imensa. As cenas em que ele aparece são ótimas. Apesar de alguns atores terem contracenado com um substituto para o cão, as cenas com Krypto foram gravadas com a ajuda de captura de movimentos e efeitos visuais. Por falar em efeitos visuais, o CGI é bem convincente. As cenas de luta são muito bem produzidas e críveis. Também vale mencionar o acerto de Gunn ao usar a música tema composta pelo mítico John Willians para o filme de 1978 de Richard Donner. É uma alegria nostálgica ouvi-la, ainda que de forma repaginada. Dá para enxergar problemas pontuais como um ou outro momento mais expositivo do Lex Luthor, por exemplo e, sendo preciosista, uma pequena barriga na duração do filme. Porém nada que estrague a experiência.

Superman de James Gunn é um ótimo início para o universo cinematográfico da DC. Se a intenção era de fazer com que esse novo filme do Homem de Aço simbolizasse a esperança, os fãs decenautas com certeza saírão esperançosos pelo que há de vir da mente criativa de Gunn. O novo longa-metragem pode não ser tão emblemático quanto o primeiro de Richard Donner, mas com certeza coroa a coragem do diretor em trazer o tema pró-imigração que pode ser bastante divisivo nos dias de hoje, principalmente dentro de um Estados Unidos governado por uma pessoa da estirpe questionável de Donald Trump, e ajuda a dar força a um gênero que parecia desgastado, simbolizando o sopro de esperança para os filmes de super-herói.